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Texto escrito por Eliane Leite, diretora da Adventure Club

Viajar pelo sul da Groenlândia é passar boa parte do tempo tentando entender a dimensão do lugar. Do navio, as montanhas parecem não terminar. Entre um fiorde e outro, surgem geleiras, icebergs, pequenas comunidades e áreas onde quase não há sinal de presença humana. E, justamente quando parece que já vimos o suficiente, o helicóptero muda a perspectiva, o Zodiac nos aproxima da paisagem e uma caminhada revela lugares que não era possível enxergar do mar.

A viagem começa em Reykjavik, na Islândia, de onde embarcamos no Ultramarine, navio da Quark Expeditions que funciona como nossa base durante os dias de exploração. A bordo estão dois helicópteros bimotores e uma frota de Zodiacs, os barcos infláveis usados para chegar mais perto das margens e desembarcar em lugares onde o navio não consegue chegar.

Depois de dois dias navegando pelo Estreito da Dinamarca, a Groenlândia começa a aparecer no horizonte. A primeira impressão é de escala. Os fiordes têm paredes muito altas e, em vários pontos, as geleiras descem pelas montanhas em direção ao mar. No leste da ilha, onde passamos os primeiros dias, a costa é desabitada. É uma região de grandes distâncias, gelo e montanhas, onde a possibilidade de encontrar animais faz parte da expectativa durante a navegação.

Esse é também um dos momentos em que fica mais evidente que uma viagem de expedição funciona de maneira diferente de um roteiro convencional. A rota pode mudar de acordo com as condições do mar, do gelo e do clima. A equipe avalia diariamente onde é possível navegar, desembarcar, caminhar ou realizar uma atividade de helicóptero. Há um planejamento, mas também existe espaço para o que o ambiente permitir.

No chamado Leste Selvagem, podemos explorar a região de diferentes maneiras. Há caminhadas, passeios de Zodiac, remadas e desembarques em terra, além das atividades com os helicópteros. Um dos lugares que pode fazer parte dessa exploração é o Fiorde Lindenow, ou Kangerlussuaq, onde ainda é possível encontrar vestígios dos primeiros povos que habitaram a região.

Navegar de Zodiac por um dos braços do fiorde aproxima ainda mais a gente da paisagem. As paredes de pedra são marcadas por cachoeiras e, dependendo do local, é possível desembarcar para caminhar entre a vegetação. A equipe também mantém os olhos atentos para a vida selvagem, especialmente mamíferos marinhos e aves.

Depois, seguimos para a costa oeste, onde a paisagem começa a ganhar outros elementos. Além dos fiordes e das montanhas, aparecem vales verdes e áreas de cultivo. Os microclimas mais amenos encontrados no interior dos fiordes favorecem a agricultura no sul da Groenlândia, uma tradição que remonta aos assentamentos nórdicos.

É nessa região que encontramos Qassiarsuk, uma pequena comunidade cercada por áreas verdes e terras agrícolas. A região faz parte de Kujataa, uma paisagem reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO, que ajuda a contar a história da agricultura no sul da Groenlândia e da presença nórdica e groenlandesa na região ao longo dos séculos.

Mas talvez a melhor maneira de perceber a dimensão da Groenlândia seja sair do nível do mar.

Um dos momentos mais marcantes da viagem acontece quando embarcamos em um dos helicópteros do Ultramarine. O voo permite chegar a áreas inacessíveis ao navio e oferece uma visão completamente diferente dos fiordes e das montanhas. Do alto, as geleiras parecem ocupar ainda mais espaço, e é possível observar seu percurso das áreas mais altas em direção ao mar.

Em uma dessas experiências, chegamos à própria Camada de Gelo da Groenlândia.

Ela cobre cerca de 80% do território da ilha e ultrapassa três quilômetros de espessura em alguns pontos. É a maior massa de gelo do Hemisfério Norte e a segunda maior camada de gelo do planeta, atrás apenas da Antártica.

Estar ali muda a maneira de compreender esses números. Pisar sobre o gelo é diferente de observá-lo de longe. A superfície parece imóvel, mas a camada se movimenta continuamente. Acompanhados por especialistas, podemos conhecer de perto esse ambiente e entender melhor a dinâmica do gelo enquanto caminhamos por uma paisagem que poucas pessoas têm a oportunidade de vivenciar.

A experiência com o helicóptero também aparece em outros momentos da viagem. Há a possibilidade de fazer pousos em locais selecionados pela equipe de expedição e também um voo panorâmico, normalmente realizado em pequenos grupos. Cada operação depende das condições meteorológicas e da logística do dia.

De volta ao navio, seguimos em direção ao extremo sul da Groenlândia.

Passamos pelo Prins Christian Sund, ou Ikerasassuaq, um fiorde com cerca de 105 quilômetros de extensão. As montanhas se aproximam da água, as paredes rochosas ficam mais íngremes e as geleiras aparecem novamente no caminho. É uma das paisagens que ajudam a explicar por que essa região é conhecida como a Patagônia Ártica.

No meio desse território está a pequena comunidade de Aappilattoq. A visita à vila traz uma mudança importante de perspectiva. Depois de dias concentrados em montanhas, gelo e vida selvagem, passamos a observar quem vive nesse lugar.

A proposta da expedição também é conhecer as pessoas locais e descobrir mais sobre a cultura por meio de histórias, música e culinária. A comunidade mantém uma forte relação com as tradições de caça e pesca, e ouvir os próprios moradores ajuda a entender como é viver em uma região tão isolada.

A viagem continua até o Fiorde Tasermiut, um dos grandes destaques da região. Com cerca de 70 quilômetros de extensão, ele é cercado por montanhas e geleiras e pode ser explorado de Zodiac, em atividades de remo e caminhadas. Dependendo das condições e da programação, também é possível participar de uma experiência de acampamento em Tasermiut, acompanhada por anfitriões locais.

E há ainda o que acontece sem planejamento.

Em uma expedição como essa, a vida selvagem depende do acaso e das condições do momento. Baleias podem aparecer durante uma navegação pelos fiordes, enquanto aves marinhas acompanham o navio. Também existe a possibilidade de encontrar outros mamíferos marinhos. Nenhum encontro pode ser garantido, e a equipe utiliza seu conhecimento da região para procurar os animais em seus habitats conhecidos.

Depois de tantos dias de exploração, a viagem de volta pelo Estreito da Dinamarca oferece um ritmo diferente. É hora de rever fotografias, participar das últimas apresentações da equipe de expedição, conversar com outros passageiros ou simplesmente observar a paisagem do navio.

É nesse momento que começo a perceber que a Groenlândia não é uma viagem para marcar atrações em uma lista. Não existe um único ponto que concentre a experiência. O que faz diferença é a sucessão de perspectivas: primeiro o fiorde visto do navio, depois a mesma paisagem de dentro de um Zodiac; a montanha observada da água e, algumas horas depois, vista do alto de um helicóptero; a camada de gelo vista de longe e, depois, sob os próprios pés.

O que fica é justamente essa variedade. Há muito para ver, mas também muito para descobrir. Em uma mesma viagem, podemos passar por pequenas comunidades, caminhar por vales verdes, navegar entre icebergs, acompanhar uma geleira e chegar de helicóptero a uma das maiores massas de gelo do planeta.

No sul da Groenlândia, a paisagem está sempre mudando. E talvez seja isso que mais fica depois de deixar a região: a sensação de que, mesmo depois de tantos dias explorando, ainda havia muito mais para conhecer.

Quer conhecer o sul da Groenlândia de uma forma diferente? 

Na Adventure Club, conhecemos profundamente a região e trabalhamos com grandes operadores locais para criar roteiros autênticos, que combinam natureza, cultura e experiências que vão além dos principais pontos turísticos. Fale com a nossa equipe e descubra as possibilidades para explorar o destino de perto.

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