Texto escrito por Esther Rapoport, historiadora e parceira da Adventure Club
Desembarcar na Tunísia foi pousar em um mosaico. E um mosaico enorme, em paisagens, línguas, cores, texturas, sons, histórias e também sabores.
Começando pela geografia: nas proximidades do Mediterrâneo, ao redor da capital do país, a gente encontrou colinas verdes, cheias de campos de trigo e outros cereais, afinal esse era um dos antigos celeiros do Império Romano.

Indo em direção ao sul do país, fomos vendo a cor da terra mudar e aos poucos o horizonte se tornou um mar infinito de oliveiras. Plantadas em filas ou distribuídas em desordem pelo terreno duro, dominavam não só o espaço, mas também a economia do país. Hoje é daqui que sai a quarta maior produção de azeite do mundo, e a maior área de cultivo de azeitonas orgânicas no planeta.
E seguimos em direção sudoeste para testemunhar como o deserto foi engolindo as terras cultivadas e ali despejando as suas dunas de areia fina e dourada. Mas entre dunas e grandes planícies áridas, outrora o fundo de um mar, a vida teimou em resistir e palmeiras enterraram suas raízes em busca das águas que fluem em lençóis subterrâneos, e formaram grandes oásis de palmeiras. São as tâmaras da Tunísia. Tâmaras e palmeiras, e mais palmeiras e mais tâmaras e seguindo essas plantas chegamos em montanhas!
Aqui fica a ponta da cordilheira Atlas, que vem desde o Marrocos. São montanhas nuas, sem qualquer outra cor além do bege, do marrom e do ocre. E se fosse um quadro eu diria que o pintor perdeu um pouco a noção das proporções… mas é real, as palmeiras conseguiram alimentar suas folhas e abrir um oásis verde entre as curvas do relevo, competindo com a rocha no visor da minha máquina fotográfica.
Mas e a gente que vive ali? Essa gente conta a história que vem desde quando o Saara era uma savana. Eram os berberes, o povo que ocupou esse terreno e recebeu os fenícios, que vinham do Levante com suas barcas potentes, sua escrita e tantas mercadorias.
Dizem que a princesa fenícia Elissa, fugindo do rei Pigmaleão, também seu irmão, que havia planejado matá-la, chegou naquele porto e negociou com o rei local, chamado Jarbas, o compra de um pedaço de terra para ali se estabelecer. O rei lhe teria dado a pele de um boi e dito que ela poderia ficar com a terra que aquele couro pudesse cobrir. Elissa então cortou a pele em tiras muito finas e assim conseguiu cercar uma colina e ali fundou sua cidade, a futura Cartago.
Mas Cartago não teve vida fácil e depois de três guerras contra o Império Romano, foi completamente destruída. Destruída e reconstruída pelos romanos, que depois a perderam para os bárbaros Vândalos, que foram derrotados pelos bizantinos, que não conseguiram conter os árabes islamizados e que sucumbiram diante dos turcos otomanos, para entregar tudo aos franceses, que só foram embora quando os tunisinos conseguiram proclamar sua independência e sua república.
Todos esses povos deixaram suas digitais nas línguas faladas, na face dos tunisinos, nas suas cozinhas, nas medinas e seus souks, onde pudemos comprar bolsas e sandálias em couro, lenços, cerâmicas, sabonetes, azeitonas e azeites, tapetes, tâmaras, temperos, artesanatos vários, sempre lançando mão do teatro da pechincha, e se perdendo em vielas e nas fotos das portas e janelas.
Uma parte emocionante da experiência foi pisar no solo dos fortes, os ribats, onde os árabes se defendiam dos bizantinos; ou das mesquitas, onde os muezim soltam a voz na convocação para as rezas diárias; nos cemitérios, onde cada túmulo tem um pote para colocar água, que serve para acalmar a sede das almas; andar na corcova de um dromedário, que se ajoelha solenemente perante cada turista; e ainda apreciar os desenhos das portas em arcos, as combinações de cores e tecidos dos tapetes, o relógio que gira no sentido anti-horário no minarete da Grande Mesquita de Testour, ver chover no deserto e poder desfrutar de uma refeição fresca e diversificada, seja a base de peixes ou de carne de carneiros, com a certeza de que à noite teríamos uma cama confortável e um ótimo café da manhã na boa infraestrutura hoteleira do país.
Afinal, a Tunísia é a Ifryquia, assim chamada pelos romanos, que depois iria dar seu nome, África, para todo o continente.























