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Peru – Passo a passo

nov, 25

Por: Felipe Mortada

Boa forma não é fundamental na rota Lares, que mescla trechos a pé e de van. Devagar e sempre, descobre-se uma surpresa a cada montanha: lagoas coloridas, ruínas, um jantar preparado com esmero.

  

Herança. Rumo ao lodge de Lamay, os terraços de cultivo de Pisac; menina andina faz pose no caminho

 

O amargor da folha de coca contrastava com a doce visão. A pressa dos batimentos cardíacos parecia duelar com a paisagem, que pedia calma para ser desfrutada. No Passo de Huchuyc casa, a 4.414 metros de altitude, o horizonte andino brinca de miragem com picos nevados e nuvens velozes. A vista premia quem ali chega após quase três horas morro acima. Ou melhor, montanha, porque chamar um colosso desses de “morro” é quase ofensivo. No fundo do vale, lagoas surreais confundem tons de azul e verde clarinhos. Falta ar. E palavras.

Estamos no segundo dia do caminho Lares, que parte de Cuzco e cujo objetivo final é Machu Picchu. Contudo, não termina diretamente na mais famosa das ruínas peruanas, diferentemente da clássica Trilha Inca. Mas também destoa da alternativa Salkantay–afinal, quem embarca nesses dois roteiros só pode seguir ou voltar a pé ou em lombo de mula.

Em comum, todas oferecem visuais fabulosos e a possibilidade de dormir em barracas, no melhor estilo mochileiro. Lares, porém, guarda vantagens consideráveis, especialmente para quem não se sente à vontade para caminhar todos os dias e quer ter a certeza de dormir numa cama confortável.

No roteiro elaborado pelo Mountain Lodges of Peru (MLP), que também conta com boas acomodações em Salkantay, Lares não é propriamente uma trilha, com começo, meio e a obrigação de cumpri-la até o fim. Trata-se de um roteiro sofisticado: combina pequenas comunidades com pouco ou nenhum contato com turistas e caminhadas por vales e lagoas pouco badalados –mas não menos incríveis.

Ação ou preguiça. Trekking, cultura local e muita história – presente em inúmeras ruínas pelo caminho – se misturam na medida certa em períodos de cinco ou sete dias. E o melhor: as atividades são sob demanda. A cada fim de tarde, você define sua programação para o dia seguinte entre opções mais agitadas ou mais culturais. A ideia é que o roteiro agrade a viajantes de diferentes perfis.

Sempre mais ativa, a primeira opção conta com caminhadas que podem variar de cinco a oito horas, cruzando pontos de interesse natural ou histórico com almoço em comunidades ou diante de cenários impressionantes. Já a segunda, chamada semiativa, em geral combina trekkings mais suaves, de até cinco horas, com imersões maiores em vilarejos, centros de artesanatos e ruínas arqueológicas. O traslado entre os pontos é feito por van. Em alguns dias, pode ser oferecida atividade que não envolva qualquer esforço.

Por exemplo, no segundo dia, enquanto o grupo ativo atravessava o Passo de Huchuyccasa, os outros estavam nas ruínas de Ancasmarca, a 4.044 metros de altitude, com uma variedade de construções incas, entre moradias, depósitos de comida e áreas de cultivo. Em seguida, caminharam por cerca de três horas, moderadamente, até Cuncani (3.884 m) e Huacawasi (3.800m), onde todos se encontraram. Pode parecer intenso (e é), mas pessoas pouco preparadas fisicamente cumpriram o trajeto sem sofrimento.

Em sintonia. Uma das particularidades do percurso Lares é a interação com isoladas comunidades rurais, algo que tanto a Trilha Inca quanto a de Salkantay não oferecem na mesma intensidade. “É incrível, pois dá para sentir o espírito andino e perceber de pertinho a gentileza das pessoas, por mais simples que sejam”, observa a empresária Eliane Leite, de 35 anos. Os pernoites ocorrem sempre em confortáveis hospedagens que empregam mão de obra das vilas. O Mountain Lodges of Peru possui duas acomodações nas pequeninas Huacawasie Lamay, ambas com oito bem decorados apartamentos. Até março de 2016, contará com mais um, em Patacancha (3.848 m).

O MLP trabalha em conjunto com as populações locais sob o modelo de joint-venture. Os terrenos continuam pertencendo à comunidade, que fica com uma margem que varia de 20% a 25% da renda dos lodges. “Dessa forma, o povoado nunca perde a propriedade de sua terra e cuida do desenvolvimento de todo o entorno, e não de apenas alguns elementos pontuais, como a água ou o acesso”, afirma o gerente geral do projeto, Enrique Umbert.

* O REPÓRTER E A ADVENTURE CLUB FIZERAM ESSA VIAGEM A CONVITE DA SOCIEDAD HOTELES DEL PERU E DA SUL HOTELS
 
 

Dia 01 – Lamay

Uma pirambeira para dar as boas-vindas

Com os primeiros raios deluz, o grupo dos que buscavam trilhas mais desafiadoras deixou Cuzco rumo ao vale do Rio Urubamba, mais conhecido como o Vale Sagrado dos Incas. Diante da charmosa igreja colonial do vilarejo de Qoya (2.900 m), trocamos a van por robustos veículos 4×4 e iniciamos uma sinuosa subida na recém-aberta estrada de terra, beirando precipícios. Na comunidade de AyarCancha, a 3.800 metros de altitude, com um horizonte nublado e sol tímido, o fim do caminho motorizado se anunciou.

Dali, passamos a caminhar morro acima por uma hora até o Passo de Challwacassa (4.250 m). A primeira pirambeira em grande altitude castigou muitos da turma. Devagar, bebendo muita água e arriscando as primeiras folhas de coca no canto da boca (para combater os efeitos da altitude), todos alcançaram o ponto alto do percurso. Só boas notícias: dali em diante, apenas 30 minutos de descida até o Pueblo de Viacha(3.900m).

Enquanto éramos recompensados por campos de capim dourado, com lindas montanhas ao fundo, o grupo semiativo saiu de Cuzco uma hora mais tarde em outra van, rumo à cidade de Pisac. Ali, visitaram o colorido mercado, que ocorre às terças, quintas e domingos, provaram sabores e se inteiraram do cotidiano dos moradores. Também conheceram o Centro Artesanal Ancasmarca, especializado em tecidos, com destaque para as lhamas, guanacos e alpacas vivos.

Foram apresentados aos métodos de tosa, filamento e coloração de fios, entendendo todo o processo de produção, até o tear.
Nos encontramos para um almoço caprichado – eles de van, nós a pé –, armado em uma tenda na pracinha de Viacha, ao som de flauta e tambor. “Começamos a receber visitantes aqui em setembro, estamos muito contentes. Cada dia nos organizamos para servi-los melhor”, disse, entre sorrisos, Antonia. Mamani Yucra, de 32 anos. Cinco mulheres estenderam panos com seus trabalhos artesanais, como lenços, cachecóis e gorros, sempre muitos gorros.

“Aos visitantes, as batatas”, brincou Julian Maqque Ccoyo, de 36 anos, enquanto mostrava em um galpão dezenas das mais de 270 variedades do tubérculo produzidas nos Andes. “Conheço todas”, afirmou, categórico. E, já que o prato escolhido foi a pachamanca (refeição preparada em um buraco no chão, repleto de pedras quentes), ele fez questão de servir. “Colocamos camadas de pedras intercaladas com carne de frango, de porco, de cordeiro e cuy (porquinho-da-índia) e, por cima, as batatas. Depois, vamos comendo com a mão, como num churrasco”, ensina.

Para digerir a comilança, todo o grupo se uniu para caminhar montanha abaixo, por 1h30, rumo ao impactante sítio arqueológico de Pisac (3.200 m), que domina todo o vale e tem um quê de Machu Picchu. As encostas mais baixas das montanhas exibem longos e curvilíneos terraços para plantio e sistemas deirrigação impressionantes. “Os incas erguiam suas construções sagradas levando em consideração medições de solstícios e equinócios. Tudo tinha um porquê”, explicou Andrés Adasme, especialista em arqueoastronomia (estudo da astronomia praticada por povos pré-históricos), que acompanhou o grupo.

O dia terminou com a recepção no lodge de Lamay – inaugurado por nós. Amplo, com oito apartamentos, tem lhamas no jardim e massagem terapêutica para ajudar na recuperação pós caminhada (um total de 6 horas, par o grupo ativo).Caprichoso, o chef Mario Muro serviu risoto de ervas com um suculento bife de filé mignon, que caiu bem com uma cerveja Cusqueña. Após um dia de sobe e desce na montanha, é bom dormir em uma cama zero-quilômetro.

      
Pausas. Conforto no Huacawasi; Julian exibe as muitas variedades de batatas; e a pedra de formato curioso, no segundo dia.

 

Dia 2 – Cuzco

Segredo revelado a quem acorda cedo

Sinceramente, minha vontade era não contar para ninguém sobre este lugar. Gostaria de voltar um dia e não encontrar quem quer que fosse no Passo de Huchuyccasa, a 4.414 metros de altitude. Mas vou dividir com você, leitor: dali, vi um dos cenários mais lindos da minha vida.

A mais deslumbrante caminhada que fiz nos Andes começa cedo, antes mesmo de o sol nascer. Depois de sair do lodge de Lamay, duas horas de viagemlevam a Quiswarani (3.829m) por uma estrada recém-asfaltada, cercada de picos nevados banhados pelos primeiros raios de luz. Para melhorar o que já é incrivelmente belo, um bando de lhamas fotogenicamente cruza a via. Os dedos descobertos para clicar o momento lutam contra o friozinho matinal andino.Chegamos à região de Lares,que batiza o percurso todo – uma homenagem mais que merecida. Singular e compacta, Quiswarani é o ponto de partida para a jornada mais revigorante da nossa semana. Enquanto já dávamos os primeiros passos na trilha, nossos companheiros do grupo semi ativo ainda despertavam placidamente em Lamay. Dali, seguiriam de carro para as ruínas de Ancasmarca, a 4.044 metros de altitude, antigo entre posto inca com localização estratégica entre as altas montanhas e a selva amazônica. Por2h40, subimos moderadamente até alcançar o citado Passo de Huchuyccasa, seguindo o mantra andino: muitas paradas, muita água e muita folha de coca.

As nuvens iam ficando abaixo de nós, enquanto um céu azul descortinava picos ao longe. Translúcida, a Lagoa de Qeuñacocha tinha lhamas pastando ao redor.

Estava tudo muito lindo e inspirador, apesar de amontanha já se fazer mais íngreme. Mas, na hora em que se atravessa o tal passo, caro leitor, o que se vê do outro lado é embasbacante. Impávidas e ensolaradas, Comercocha e Totoracocha, lagoas de tons turquesa, repousam no fundo do vale, rodeadas por um caldeirão de montanhas gramadas.

Não é miragem. Gritos, sorrisos e selfies antes de prosseguirmos por mais uma hora até o Passo de Phoñaccasa (4.387 m), em um chamado “plano andino” – ou seja, nem sobe muito, nem baixa muito. De lá, se vê a Laguna Negra. Uma quebrada à direita e começamos a descer. Em poucos instantes, outra lagoa, lá longe, com três tendinhas amarelas minúsculas na beira. Neste momento, nossos colegas semiativos deviam estar passando – de carro – pelo Passo de Lares (4.420 m) até chegar a Cuncani (3.884 m), de onde caminhariam suavemente por três horas. Fontes seguras contaram que almoçaram um belo lunch box, com uma salada deliciosa e um sanduíche.

O melhor para o grupo ativo, contudo, ainda estava por vir. Bastaram 30 minutos de descida para alcançarmos a lagoa de Qeywacocha (4.150 m), onde as pequeninas tendas que se viam ao longe se transformaram, de perto, num amplo restaurante. Um capricho, que incluía água quente para lavar as mãos, cervejinha para os mais animados e Inka Cola (o tradicional refrigerante local) para os carentes de glicose. Uma reconfortante sopa de milho com queijo e um lomosaltado (carnepicada típica da região) nos deixaram ainda mais perto do céu.

Mas, como tudo o que sobe, era preciso descer. E lá fomos nós, por 1h30, até o vale de Qelqena (3.647 m), onde a van nos esperava. Totalizamos seis horas de dura caminhada em oito quilômetros percorridos. Lá de baixo, podíamos avistar no alto do platô – tal qual formiguinhas – os companheiros semiativos em sua plana e tranquila caminhada de três horas. Logo estaríamos relaxando na jacuzzi, antes de jantar no lodge de Huacawasi (3.800 m), onde todos nos encontramos no fim do dia. E que dia. / F.M.

Dia 03 – Huacawasi

Todos juntos, até o ponto mais alto da trilha

Cores e mais cores provocavam os olhos pela manhã, em Huacawasi. famosa por sua produção têxtil, a vilinha tem nos moradores seus melhores modelos. Ponchos, saias e chapéus de fitas multicoloridas desfilavam adornando homens, crianças e mulheres. Não é para turista ver, é assim todo dia. Lentamente, cruzávamos o vilarejo rumo a Patacancha, a 14 quilômetros dali e também na faixa dos 3.800 metros de altitude. O problema, ou melhor, o desafio, atendia pelo nome de Passo de Ipsaycocha, a 4.442 metros.

Neste dia, os dois grupos passearam juntos. A diferença foi que os semiativos saíram mais de 1h30 antes. Caminhando num ritmo tranquilo, todos encararam a subida de 2h30, inclusive os menos habituados. “Para quem não tem nenhum preparo físico, como eu, foi superpossível. Os guias foram bárbaros, sempre orientando e me apoiando a cada trecho, sem pressão”, conta a consultora de turismo Rogéria Pinheiro, de 37 anos.

Durante a caminhada, é comum encontrar moradores se deslocando de aldeia em aldeia,levando mercadorias e rebanhos. Lhamas pastando ao redor são comuns nas inúmeras paradas para se hidratar e beliscar alguma fruta seca ou chocolate. O vento é companhia constante, por isso um casaco corta vento é muito bem-vindo.

Perto do passo a inclinação aumenta e o solo fica mais pedregoso, como um desafio final. Ao alcançar o outro lado, os dois grupos se encontram e, abrigados do vento, posam para uma foto coletiva. Afinal, estamos a 4.442 metros acima do nível do mar, no ponto mais alto da viagem.

Daí por diante, só alegria. Cerca de 40 minutos de descida até o Lago de Ipsaycocha, onde o circo estava armado para o almoço.

Bonito, com água clara nas margens e trutas pulando aqui e ali (vimos um morador fisgar uma delas), um ótimo consolo para quem não foi até a Lagoa Qeywacocha na trilha ativa da véspera.

O macarrão com molho de tomates frescos agradou a todos, e os que pediram dieta sem glúten tiveram sua versão adaptada – e elogiada. Difícil foi prosseguir por mais 1h30 até Patacancha. No entanto, havia um outro ótimo motivo para concluir as cinco horas de trekking deste terceiro dia.e, só alegria. Cerca de 40 minutos de descida até o Lago de Ipsaycocha, onde o circo estava armado para o almoço. Bonito, com água clara nas margens e trutas pulando aqui e ali (vimos um morador fisgar uma delas), um ótimo consolo para quem não foi até a Lagoa Qeywacocha na trilha ativa da véspera.

Padrinhos. Havíamos sido convidados por Juan, um dos carregadores, para o batizado de seu filho. Seguindo as antigas tradições rurais peruanas, ao completar um ano a criança recebe seu nome definitivo e é apadrinhada. Os padrinhos deixam dinheiro sobre uma bandeja e ali pegam uma tesoura, com a qual cortam chumaços de cabelo do pequeno, que são colocados ao lado das notas. A família prepara um banquete, com direito a perninhas de cuy (porquinho da-índia). Todos do grupo acabaram apadrinhando o despojado menininho, que parecia estar se divertindo e, desde aquele dia, se chama Adriano. /F.M.

Dia 04 – Ollantaytambo

Descanso merecido antes do ‘grand finale’

Depois de três dias de caminhada, finalmente um dia mais relaxante e com os dois grupos juntos o tempo todo. Na véspera, saímos de Pachacancha e dormimos em Ollantaytambo, vilinha gostosa com apenas 700 habitantes cuja população se multiplica diariamente. Afinal, suaruí- na homônima é amais visitada – depois de Machu Picchu, claro.

Apesar de simples, os jardins e o café da manhã valem a hospedagem no Hotel Pakaritampu (pakaritampu.com; diárias desde US$ 173,21 o casal). Dali, são só 10minutinhos a pé até o sítio arqueológico. A entrada é com boleto turístico, o mesmo necessário para visitar patrimônios como Sacsayhuamán, Moray e Pisac (desde 130 novos soles ou R$ 112 em cosituc.gob.pe; não é válido para Machu Picchu). Uma vez perfurado, subimos pelos terraços íngremes que guardam as impressionantes ruínas.

O guia Guido Huaman Serrano explica que Ollanta era o nome de um guerreiro inca; tambo significa lugar de descanso. “Este sítio foi erguido no século 15 sobre ruínas de civilizações pré-incas. Porém, nunca foi acabado, como indicam algumas pedras soltas pelo caminho”, aponta.

Em 1536, o rebelde Manco Cápac II havia recuado para essa fortaleza após ser derrotado em Sacsayhuamán. Hernando, o irmão mais jovem de Francisco Pizarro, o principal conquistador espanhol a se aventurar no Peru, tentou derrotar o líder inca com uma força de70 cavaleiros. Ali, a tropa espanhola foi recebida com uma chuva de flechas e pedras vindas do morro. Além disso, Manco Cápac II construiu canais para alagar a planície abaixo da fortaleza e, assim, os cavalos atolaram na água.

O arqueoastrônomo Andrés Adasm e se entusiasmava mostrando in loco as linhas de construção. “O sol bate aqui no solstício e no equinócio e a linha de pedras acompanha o giro do sol. Os incas queriam conectar os edifícios com o céu, onde estão as divindades”, esclarece.

Quase lá. Das ruínas saímos apressados para não perder o Trem rumo a Águas Calientes, cidade de acesso a Machu Picchu. Após 1h30 de um suave chacoalhar, adentramos a compacta vila de Águas Calientes, espremida entre montanhas verdes e verticais e o caudaloso Rio Urubamba. Exclusivamente turística, vivem função do sítio arqueológico, distante oito quilômetros. Para chegar no alto da montanha, são 30 minutos de ônibus (US$ 19) ou 1h30 de caminhada morro acima por uma trilha paralela, sem muitos atrativos.

A subida, entretanto, seria só no dia seguinte. Enquanto isso, uma visita ao mercado de souvenirs oferece opções coloridas para agradar àqueles que vieram na viagem. Estamos a 2.400metros de altitude, ou seja, quase mil metros abaixo de Cuzco, e a grande questão é a umidade. A forte chuva que chegou enquanto pechinchávamos foi a prova disso.

O ideal para aproveitar ao máximo o melhor horário em Machu Picchu é chegar na véspera a Águas Calientes. Trata-se de um povoado simples, com opções de hospedagem tanto para mochileiros como para quem busca conforto. O Sumaq (machupicchuhotels-sumaq.com) é um cinco-estrelas pomposo, com decoração clean nos quartos, adornos dourados no hall e excelente gastronomia (diárias a partir de US$ 383). Já a proposta do Inkaterra (desde US$ 318; inkaterra.com) é bem diferente, com casinhas espalhadas pela mata, onde são cultivadas espécies raras de orquídea e é mantido um projeto de reintrodução de ursos-de-óculos em seu hábitat.

Fazer compras ou descansar pela tarde é a melhor alternativa para estar pronto para madrugar e alcançar a cidadela antes de a muvuca tomar conta. Embora o primeiro ônibus parta apenas às 5h30, as filas podem começar às 4 horas. É cedo demais, sim. Mas, convenhamos: você chegou até aqui. Vai trocar a experiência de viver e fotografar Machu Picchu quase sem ninguém por causa de uns minutos a mais de sono? Eu, não. / F.M.

 

Dia 05 – Águas Calientes

Finalmente, a cidadela como recompensa

Do jeito que imaginei, não era. Ainda bem. Complexa e espalhada, Machu Picchu se revelou mais do que eu esperava. Quando imaginamos um lugar tão falado e fotografado quanto Machu Picchu, acabamos por não considerar como seriam as sensações ao pisar ali.

Se nada houvesse no alto da icônica montanha, o cenário já seria suficientemente cativante, encravado a 2.400 metros de altitude num e maranhado de altos cumes delicadamente recortados e cobertos com uma vegetação densa, já tropical. Uma umidade que nos é familiar envolve as toneladas de pedras esculpidas e alinhadas para dar forma a um lugar que merece a fama que tem.

Cada rocha comunica, compõe, tem um porquê. E os guias são essenciais para ajudar na interpretação, já que, de outra forma, se tratariam apenas de pedras e mais pedras empilhadas. No nosso caso, Guido Huaman Serrano não hesitava em comentar cada detalhe – e a companhia de alguém tão empolgado deu vida às ruínas.

“Sou apaixonado por esse lugar. Cada vez que venho aqui parece ser a primeira”, conta Guido, com sorriso nos olhos. A experiência, mesclada ao amor pela cidade inca, compõe a fórmula para aproveitar Machu Picchu ao máximo: estar entre os primeiros na fila e não seguir o fluxo. Após a verificação dos ingressos, enquanto a horda de turistas subir as escadas à esquerda, desça à direita, na contramão das placas de saída. Eis o segredo.

Eram 6 horas da manhã em ponto quando pisamos lá dentro. Atravessamos os terraços agrícolas e demos de cara com quatro lhamas que se aproximaram, dóceis, posando curiosas para fotos sem ninguém atrás (logo eu saberia o quão difícil é isso). Dobramos pelo Templo do Sol, com destaque para o altar e suas janelas, que podem ter sido utilizadas para fins astronômicos. Passamos pelos banhos cerimoniais e pela Casado Alto Sacerdote.

Olhei para o lado e lá estava ela: a Praça Central, que separava os lados sagrado e residencial da cidade, com seu imenso gramado naturalmente aparado pelas lhamas. Vazia. Completamente vazia. Mal passava das 6h10 e já havia clicado mais de 200 fotos. Extasiado, Guido nos conduziu até a Plaza Sagrada, apontando para os muros de pedras perfeitamente encaixadas. “Olhem isso, olhem bem para isso. Daqui a pouco, vocês não conseguirão fotografar o Templo das Três Janelas”, advertiu, em relação ao tsunami de turistas que avançava em nossa direção.

No ponto mais alto, que encabeça o setor sagrado de Machu Picchu, está Intihuatana – ou, na língua quíchua, “lugar onde se amarra o sol”. Trata-se de uma pedra perfeita mente esculpida e alinhada com os solstícios de inverno e de verão, utilizada para registrar a passagem do tempo e ajudar na medição dos ciclos de agricultura.

Não se espante ao ver turistas com as mãos por cima do monólito (que não pode ser tocado) para captar a suposta energia que dele emana. Segundo o guia Guido, a pedra teria sido recoberta por ouro e prata. Pode até ser. Instrumento de uso prático e ritualístico, a Intihuatanaa parece em outras llactas (cidades) incaicas, mas nunca foi comprovada sua associação aos nobres metais, exceto em datas comemorativas na presença do imperador inca.

Outro ângulo. Antes das 7 horas, já estávamos na fila para subir Huayna Picchu, a “montanha jovem”. Para desfrutar da melhor vista de Machu Picchu – a “montanha velha” –, é preciso suar por cerca de uma hora em uma subida íngreme. E a volta não se mostrou menos exigente, embora seja morro abaixo. A panorâmica, contudo, é exclusiva de quem reserva a subida na compra do ingresso. Paga-se um adicional de 23 novos soles (R$ 20) ao preço da entrada no parque (126 novos soles ou R$ 110 no sitemachupicchu.gob.pe).Há um limite de 400 aventureiros por dia em Huayna Picchu, em dois grupos de200 (um entre 7h e 8h; outro das 10h às 11h),o que exige algum planejamento extra.

Cada passo até alcançar os 2.700 metros do íngreme cume que lembra o Pão de Açúcar é recompensado com o visual. Quem estiver cansado pode parar nos primeiros terraços, descansar ou até mesmo descer dali mesmo. Até o cume são mais 10 minutos e, apesar de a vista ser bem parecida, a sensação de conquista e de estar no topo de toda uma civilização é única. / F.M.

    

   
A velha e a jovem. A majestade de Machu Picchu (à esq.) e escadaria íngreme que leva a Huayna Picchu
*FOTOS: FELIPE MORTARA/ESTADÃO

Fonte: Estadão

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